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quarta-feira, 7 de março de 2012

NOTA DO SINTEF Cajazeiras, sobre a Greve Municipal dos Professores; reprodução a pedido



NOTA DE APOIO A GREVE DO SIMFUMC

O SINTEFPB- Sindicato dos Trabalhadores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica da Paraíba - Coordenação Municipal de Cajazeiras, vem a público afirmar apoio e solidariedade a greve dos professores e professoras filiados ao SINFUMC-Sindicato dos Funcionários Municipais de Cajazeiras.
O SINTEFPB entende que o movimento paredista, hora organizado pelos professores e professoras do município de Cajazeiras, é justo e possui legalidade, pois, trata-se de uma luta pela aplicação da Lei Federal nº 11.738/08 (Lei do Piso Salarial dos professores e professoras da educação básica). O Piso Nacional é uma conquista dos trabalhadores (as) que visa a melhoria da Educação a partir da valorização dos profissionais de ensino. Por isso, sua aplicação pelos gestores dos Estados e Municípios, na verdade, representa uma obrigação e, acima de tudo, o reconhecimento e respeito pelos profissionais que educam este país.
Em defesa desse e de outros direitos, reafirmamos que a greve é um instrumento legítimo de defesa de direitos dos trabalhadores (as) e, considerando as questões acima apontadas, manifestamos o nosso irrestrito apoio a essa grande luta que é nacional.

                    ______________________________
Gilvandro Vieira da Silva
Coordenador Municipal
SINTEF-PB/ CSM - Cajazeiras

sábado, 3 de março de 2012

LIBERDADE VIGIADA (TEXTO DO SINTEFPB - REPRODUÇÃO)




LIBERDADE VIGIADA

O projeto de segurança instalado no Campus de João Pessoa, do IFPB, parece ter saído de uma obra futurista de ficção científica. Entretanto, as técnicas adotadas pelo projeto só tem a aparência de futuristas, já que utilizam recursos tecnológicos modernos da engenharia e da comunicação mas, na verdade, recorrem à estilos de vigilância projetados no século XVIII.

O diretor do Campus de João Pessoa mandou instalar câmeras digitais em locais
estratégicos da convivência e circulação de servidores e estudantes, o que lhe dá a condição, ou a fantasia, do controle interno total da instituição.

O projeto é totalmente antipedagógico e autoritário, já que retira a privacidade das pessoas dentro da instituição. Desta forma, qualquer gesto emitido ou postura adotada no interior do Campus estarão sendo observados: ao caminhar displicentemente pelos corredores ao pátio da instituição você estará sendo observado (a) pelo olho eletrônico do gestor.

A instituição deve zelar pela segurança interna das pessoas e pelo patrimônio da
instituição sem que, para isto, seja preciso violar direitos civis, a exemplo da privacidade gestual, postural e o direito à livre locomoção. As câmeras devem ser utilizadas para vigiar o entorno do prédio e a entrada e saída de veículos e pessoas.

O projeto de segurança do Campus de João Pessoa parece uma cena trasladada da novela de George Orwell (adaptada para o cinema), 1984, na qual o escritor faz uma crítica ferrenha aos regimes de opressão das décadas de 30 e 40 e a todos os projetos de nivelação da sociedade, que buscam reduzir as pessoas a peças ou instrumentos visando ao controle social total.

As tentativas de controle total das pessoas também recebem inspiração de uma estrutura arquitetônica concebida para as prisões no século XVIII pelo filósofo Inglês e teórico social Jeremy Bentham: o Panopticon. O conceito do Panopticon é permitir que um observador possa observar (ópticon) todos (pan) que estejam reclusos em uma instituição sem que eles sejam capazes de perceber que estão sendo vigiados. Bentham concebeu o plano como sendo igualmente aplicável a hospitais, escolas, asilos e manicômios. O panopticon é, segundo o próprio Bentham, "um novo modo de obter poder da mente sobre a mente, em uma quantidade até então não atingida”.

O projeto é totalmente antipedagógico podendo estimular mais o “voyeurismo” do que as práticas civilizadas da convivência e sociabilidade. O voyeurismo é a prática da observação de um indivíduo pelo outro, sem que o observado tenha consciência disso; geralmente, é praticado com o auxílio de binóculos ou câmeras.

Como se não bastassem esses exageros de segurança dentro de um ambiente
acadêmico, neste semestre o diretor do Campus adotou um sistema de fechaduras
eletrônicas nas salas de aula da instituição. Professores e alunos estarão reclusos em celas fechadas durante os 40 minutos da aula, é o professor que terá a senha digital para fazer abrir o sistema. O projeto é excelente para prisões e totalmente inadequado para ambientes acadêmicos. Mais uma vez a gestão do Campus ataca, acintosamente, a liberdade de ir e vir dentro da instituição. Será que os pais dos alunos aprovam esse comportamento? A escola não tem a obrigação de formar cidadãos livres e conscientes, porque o apanágio às restrições individuais no que concerne ao que é mais sagrado na vida das pessoas: o direito à liberdade de ir e vir e à gestualidade?

As novas metodologias educacionais primam pela criação de ambientes agradáveis que estimulem a liberdade e a criatividade dos aprendentes e dos ensinantes. Nesse sentido, os gestores do Campus de João Pessoa estão carecendo, urgentemente, de uma atualização dos seus conceitos sobre educação e processo de produção do conhecimento. É preciso decidir se estamos em uma escola ou em uma prisão; as duas instituições tem objetivos antagônicos na sociedade: uma pune a outra educa para o exercício pleno da cidadania.

Ass.: SINTEFPB

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

“A crise ambiental é a crise da democracia”

09/02/2012 12:49:40

“A crise ambiental é a crise da democracia”

Stephen Leahy, da IPS

Para enfrentar os desafios do Século 21, entre eles os da mudança climática, alimentação mundial e eliminação da pobreza, é preciso se livrar das “armadilhas do pensamento” que nos impedem de ver o mundo como ele é, declarou a ambientalista norte-americana Frances Moore Lappé. “Não há maneira de abordar a mudança climática ou a pobreza sem uma democracia real”, afirmou a autora de EcoMind: Changing the Way We Think to Create the World We Want (Mente ecológica: Mudar o modo como pensamos para criar o mundo que queremos), publicado pela Nation Books. Lappé escreveu 18 livros, entre eles o muito influente Diet for a Small Planet (Dieta para um pequeno planeta).

A IPS conversou com a ativista sobre seu novo livro.

IPS – A que se refere com “armadilhas do pensamento”?

Frances Moore Lappé – Não vemos o mundo como ele realmente é, mas através de um filtro ou mapa mental. As pesquisas em neurociência mostram que interpretamos o mundo com base em nossas experiências passadas. Em outras palavras, vemos o que esperamos ver. Uma das ideias dominantes em nossa sociedade tem a ver com a escassez ou a carência. Não há suficientes recursos ou alimentos para todos nós. Então, “vemos” ou interpretamos tudo a partir desse filtro ou marco de referência.

IPS – Como nos afeta essa ideia da “escassez”?

FML – Acreditar que não há o suficiente nos coloca na defensiva e nos leva a competir entre nós mesmos. Pensamos que é melhor conseguir o nosso antes que alguém mais o faça. A maioria das pessoas com as quais falo insistem em que nossa realidade atual e futura é que há sete bilhões de pessoas na escassez do planeta. Estão cegas por esta mentalidade.

IPS – Não é verdade que estamos ficando sem recursos como água, energia e alimentos?

FML – Quando jovem estudante descobri que a produção alimentar dos Estados Unidos era extraordinariamente de desperdício e ineficiente. Sete quilos de milho e soja alimentavam o gado para obter meio quilo de carne. Esse meio quilo exigia 45,4 litros de água. Quase metade de todos os alimentos colhidos nunca é consumida. Este desperdício surpreendente é a regra, não a exceção, e não só na produção de alimentos. O setor da energia nos Estados Unidos gasta entre 55% e 87% do que gera. Mas não é só nos Estados Unidos. Estudos da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que três mil das maiores corporações do mundo causaram danos ambientais no valor de US$ 2 trilhões apenas em 2008.

IPS – Por que somos tão destrutivos e desperdiçadores?

FML – É o resultado da atual economia de mercado, que se centra unicamente em gerar os retornos mais rápidos e mais altos para uma pequena minoria que ostenta a riqueza. Nossa economia cria escassez sendo extraordinariamente desperdiçadora e destrutiva. O termo “economia de livre mercado” é completamente errado. O que temos é uma economia de mercado corporativo-monopólica de desperdício e destruição. Temos que ser mais cuidadosos e mais precisos em nossa linguagem.

IPS – Cada vez mais ambientalistas e alguns economistas destacam a necessidade de passar de uma economia centrada no crescimento para uma focada no crescimento, mas você diz que isto é uma armadilha do pensamento.

FML – Sim, leva a um debate que distrai, sobre os méritos do crescimento versus o não crescimento. O crescimento soa como algo bom, por isso a maioria das pessoas resistirá à ideia de não realizá-lo. Contudo, é melhor apontar para um sistema que potencialize saúde, felicidade, vitalidade ecológica e poder social.

IPS – Em seu livro também propõe que todos se centrem em “viver a democracia”.

FML – Os Estados Unidos se converteram no que se chama uma “plutonomia”, onde o 1% de cima controla mais riqueza do que os 99% de baixo. A desigualdade é maior agora nesse país do que no Paquistão ou no Egito, segundo o Banco Mundial. O resultado é que as corporações e os muito ricos influem nas decisões públicas por meio de contribuições políticas e exercendo pressão. Atualmente há cerca de 20 lobistas para cada integrante do Congresso norte-americano. Para contrapor a este governo de privados, precisamos recriar uma cultura de responsabilidade mútua, de transparência, de participação da cidadania e de financiamento público das eleições. A democracia não é simplesmente votar uma vez por ano, mas uma cultura, um modo de vida. A “mãe de todos os problemas”, na maioria dos países, está tirando o poder da riqueza concentrada da tomada de decisões públicas e reforçando as vozes dos cidadãos. A crise ambiental é, de fato, uma crise da democracia.

IPS – Muitas pessoas com consciência ambiental sentem que já é muito tarde e que há muito a ser superado.

FML – Pensar que é muito tarde é outra armadilha do pensamento. Pode ser muito tarde para evitar impactos significativos que poderiam ter sido evitados se há duas décadas se tivesse agido. Não é para a vida. Meu livro está cheio de exemplos de pessoas que assumem cargos e mudam as coisas. O que faz as pessoas pensarem que é muito tarde é que se sentem sozinhas e indefesas. E se sentem assim pelas armadilhas do pensamento, pelas falsas crenças sobre a escassez e sobre a natureza humana como invejosa e egoísta. Estas crenças e um governo de privados conduziram a um sentimento de indefesa.

IPS – Este ano marca o 20º aniversário da histórica Cúpula da Terra, e a Conferência Rio+20 a colocará em destaque em junho. O que pensa a respeito?

FML – Participei da Conferência Rio+10 e retrocedemos nesses dez anos. A Rio+20 pode ser a oportunidade de reverter o curso e nos alinharmos com a natureza para criar o mundo que realmente queremos. Envolverde/IPS (IPS)

domingo, 1 de janeiro de 2012

COMEMORAÇÃO REPRESENTATIVA

ALGUÉM ME DÊ UMA LUZ SOBRE ESSE EVENTO:

Clima festivo porque 31 alunos colaram grau? Não deveriam ser 40 alunos multiplicados por 08 cursos? Ou seja 320 alunos? Como diria o Juca Chaves, "...assim o Brasil vai pra trás..." Menos de 10%/; comemorar o quê?


29/12/2011 às 17h31

Em clima festivo 31 alunos de oitos cursos colaram grau no Campus João Pessoa

— registrado em:
Ainda vivenciando as festividades natalinas o Campus João Pessoa realizou a última colação de grau especial de 2011. A solenidade, realizada em caráter extraordinário, ocorreu no dia 27, às 19h, no auditório José Marques.
Participaram da cerimônia 31 alunos dos Cursos Superiores de Tecnologia em Telecomunicações, em Construção de Edifícios, em Design de Interiores, em Geoprocessamentos, em Sistemas Para Internet, em Automação Industrial, em Negócios Imobiliários e Licenciatura em Quimica.
Antes da solenidade os formandos, seus familiares, servidores e alunos do campus assistiram, às 18h30, no pátio do campus, a apresentação da cantata natalina do Coral Luzia Simões Bartolini. O grupo é regido pela professora Angélica Lacerda e composto por alunos dos cursos técnicos integrado e subsequente de instrumento musical e estudantes do grupo de extensão de música regional.
coralNa ocasião o coral apresentou músicas natalinas como “Auto Natalino”, “Sapatinho de Natal”, “Oh Vinde Adoremos”, “E nasceu Jesus”, “Natal das Crianças”, dentre outras. As músicas foram executadas com arranjos regionais, que em sua maioria foram criados pela professora e pelos próprios alunos. “O arranjo da música Sapatinho de Natal, acabamos de fazer hoje”, contou a professora Angélica. “Fizemos uma roupagem diferente, a gente vai brincar com a música”, disse descontraída a professora ao introduzir uma das canções.
Logo depois da apresentação musical, às 19h, a solenidade de Colação de Grau foi iniciada. Após a declaração de abertura da cerimônia, realizada pelo Diretor-Geral do Campus João Pessoa, professor Joabson Nogueira, foi cantado o Hino Nacional por todas pessoas presentes na cerimônia.
Em seguida a aluna do Curso Superior de Tecnologia em Design de Interiores, Sabrina Cavalcanti, oradora da Colação, falou em nome de todos os formandos. Ela fez um discurso motivador, levando seus colegas a refletirem sobre a jornada futura que todos terão que percorrer, após a formatura. 
Ela ressaltou a importância de todos os concluintes assumirem a responsabilidade de difundir os conhecimentos adquiridos, para que somando esforços possam melhorar a vida em sociedade.“Hoje é um grande dia para todos nós formandos. Até esta data fomos meros coadjuvantes e grandes consumidores do mundo intelectual, vivenciado por nossos mestres. Agora temos a obrigação de contribuir com nossos conhecimentos para a melhoria das condições de vida de toda a coletividade”, discursou Sabrina.
Concluindo ela agradeceu aos pais e familiares que possibilitaram e colaboraram para o cumprimento de mais essa etapa na vida dos formandos. “Façamos um agradecimento especial aos nossos mestres, que transmitiram, ao longo de toda essa jornada, com paciência e dedicação, os ensinamentos e conhecimentos essenciais ao correto exercício de nossas funções profissionais”, acrescentou.
juramento
Na continuação da solenidade foi efetuado o juramento dos cursos de licenciatura e tecnologia. Na sequência foi realizada a concessão de grau pelo Diretor-Geral do Campus, professor Joabson Nogueira, e logo após ele fez seu discurso.
Em sua fala o professor Joabson Nogueira destacou a importância dos familiares na vida de cada formando afirmando que eles são os responsáveis pela formação dos concluintes em cidadãos. Dirigindo-se aos formandos ele externou a alegria pelo momento que eles estavam vivenciando e afirmou que a intenção do IFPB é sempre propor uma construção conjunta do conhecimento.
“Se vocês eram coadjuvantes, agora passam a ser os protagonistas. Mais que um certificado, vocês vão receber uma missão, pois fizeram um juramento. E eu entendo que o juramento é a parte mais importante dessa cerimônia, não o ritual da concessão de grau. Foi no juramento que vocês fizeram um compromisso ético com vocês mesmos, a escola, que lhes formou, e a sociedade. Compromisso para construir uma sociedade melhor e mais justa”. Foi com essas palavras que o professor Joabson Nogueira encerrou a cerimônia de colação de grau.

banda auditório oradora
alunos assinatura Discurso de Joabson

*Texto e fotos: Daniela Espínola – Jornalista do IFPB/Campus João Pessoa

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Belo Monte: a batalha dos vídeos



Artigo de Rodolfo Salm publicado no Portal Ambiente Cidadania, no dia 10 de dezembro.

Finalmente, o debate sobre os problemas da construção da hidrelétrica de Belo Monte ganhou a visibilidade que merece no Brasil. Isso, em grande medida, graças a um vídeo organizado pelo ator Sérgio Marone com a participação de vários atores e atrizes da Rede Globo. O vídeo, "É a Gota D'Agua + 10" veiculado no Youtube, foi amplamente divulgado pelas redes sociais, resultando rapidamente na coleção de um milhão de assinaturas enviadas à presidente Dilma Rousseff na forma de uma petição pedindo "a interrupção imediata das obras de Belo Monte e a abertura de um amplo debate que convoque os brasileiros a refletir e a opinar sobre qual o modelo de progresso que estamos dispostos a perseguir, ciente das conseqüências de suas escolhas". Porém, se por um lado o vídeo dos atores globais foi extremamente eficiente na divulgação da questão e na coleta de assinaturas contra a barragem, por outro lado desencadeou uma série de reações violentas, na forma de vídeos-resposta produzidos por defensores de Belo Monte ("Tempestade em copo d''água", proveniente da faculdade de Engenharia Civil da Unicamp e "Verifique os fatos", da UnB).

O vídeo "É a gota d'água +10" foi inspirado em "Don't Vote", produzido em 2008 pelo ator Leonardo Di Caprio e dirigido por Steven Spielberg, em que atores hollywoodianos pediam à população que votasse na eleição em que Barack Obama se elegeu presidente dos EUA. Apesar do seu mérito em dar visibilidade à luta contra Belo Monte, a versão brasileira do vídeo de celebridades engajadas tem algumas falhas. Falhas que não invalidam o seu argumento central, contra a barragem, que é correto, mas que serviram de poderosa munição para a resposta barrageira. A que mais chama a atenção, na voz da atriz Ingrid Guimarães, é a observação de que "Abaixo da barragem, o rio banha o Parque Nacional do Xingu".

Na verdade, o parque indígena está distante cerca de 1000 km rio-acima, já no estado do Mato Grosso. O que não significa que não esteja seriamente ameaçado pela construção da barragem, que traz conseqüências para toda a bacia deste que é o último grande rio em bom estado de conservação da Amazônia. Ameaçado, principalmente, devido aos seus impactos indiretos, como a atração de um imenso contingente populacional para a região, que já está causando um pronunciado aumento nos desmatamentos em toda a bacia do Xingu.

E, abaixo da barragem, está a menos famosa que o Parque, mas não menos gloriosa, Volta Grande do Xingu. Uma centena de quilômetros de cachoeiras, corredeiras, ilhas e praias de areia branca, que seria devastada com a construção da barragem que desviaria permanentemente quase todo o fluxo do rio, deixando-o praticamente seco.

Se, por um lado, o único equívoco de fato do filme dos artistas foi falado por Ingrid Guimarães, por outro, é ela mesma que diz o mais importante: "A gente pode parar essa obra!". O BNDES, por exemplo, até agora não aprovou oficialmente o financiamento. Por que essa coisa "tão maravilhosa" continua tendo problemas?

Outra falha do vídeo dos atores globais foi botar ênfase demais no custo de 30 bilhões de reais da obra, e no alagamento de 640 km2 de floresta. Trinta bilhões de reais, que de fato viriam em sua grande maioria dos impostos que pagamos, é muito dinheiro e 640 km2 também é muita floresta. Mas, como argumentam os que defendem as obras, esta soma não é tanto dinheiro assim, junto do que o Brasil fatura todos os anos com exportação agropecuária e a mineração.

E os 640 km2 de floresta que seriam alagados também não é tanta floresta assim, se pensarmos que é mais ou menos o que perdemos continuamente a cada dois meses com os desmatamentos na Amazônia. O grande problema é que, com a construção de Belo Monte e das outras dezenas de hidrelétricas planejadas para as próximas décadas, teríamos a destruição de metade da floresta amazônica devido às profundas transformações causadas pela imigração de centenas de milhares de pessoas para o centro de áreas remotas de floresta. Além da perda de biodiversidade, que seria uma tragédia imensa para toda a humanidade, essa devastação já está causando profundas mudanças climáticas no nosso país. Isso sim nos trará um prejuízo em dinheiro enorme.

A revista Veja, que consegue sempre se superar em seu baixo nível, publicou na edição de 7 de dezembro uma reportagem odiosa sobre o assunto: "Nocauteados pela lógica", de André Eler e Laura Diniz, em que os atores globais que fizeram o vídeo-protesto contra Belo Monte são chamados de "celebridades-desmioladas-que-abraçam-qualquer-causa-politicamente-correta".

Dentre uma série de informações distorcidas para defender, a todo custo, a construção da barragem, há um quadro explicativo com citações do vídeo dos artistas e comentários dos vídeos dos estudantes favoráveis à barragem, em que eles supostamente "nocauteariam" os atores no que seria, segundo eles, "o primeiro debate sério da internet brasileira". O curioso é que, com a exceção do equívoco de Ingrid Guimarães sobre a posição do Parque do Xingu em relação à barragem, não há o que se recriminar nas falas dos artistas.

O primeiro suposto nocaute seria em Marcos Palmeira. O ator diz "Se não fizer a hidrelétrica de Belo Monte, não vai ter energia. Se não tiver energia, como é que eu vou ver televisão pra assistir minha novela?". Um estudante da UnB responde "Após passarmos por ameaça de apagão, reduzir a questão da demanda de energia no Brasil para assistir novela parece até piada". Só que era realmente piada. Nesse ponto do vídeo, Marcos Palmeira e os outros atores, para introduzir o assunto e chamar a atenção, claramente imitam o consumidor de energia elétrica desinformado e preocupado com o simples funcionamento da sua televisão. Assim como os atores do vídeo americano diziam don't vote, who cares? (não vote, quem se importa) antes de dizer vote. "Gente, não dá para ficar sem luz. Eu sou a pessoa mais conectada. Sem luz, sem celular, sem iPad, sem iPhone, sem iTudo?", também falou Guilhermina Guinle nessa linha. E uma vez que Marcos Palmeira trabalha fazendo novelas, a piada se justifica totalmente e a observação do estudante, ao invés de ser um "nocaute", foi apenas uma grosseria de quem não entendeu, ou fingiu não entender o vídeo dos artistas.

A atriz Elisângela falou: "Durante oito meses do ano, aquela região praticamente seca". E teria sido nocauteada pela observação "Dizer que praticamente seca é um pouquinho exagerado, não acham?", feita com o rio Xingu ao fundo, que em seu leito é mundo de água, mesmo na época da seca (ainda que a água estivesse praticamente parada). Só que a atriz, em sua pertinente observação, não disse que "o rio" praticamente seca. É claro que o rio permanece com água! O Xingu praticamente pára de correr e não tem condições de mover uma turbina sequer em boa parte do período seco. A região de fato praticamente seca. Estamos na metade de dezembro e, enquanto chove no país quase todo, a seca que começou em maio continua forte por aqui. Isso é uma novidade dos últimos anos nessa região da Amazônia, devido à progressão dos desmatamentos. Os imigrantes que chegaram por aqui na década de 1970 com a abertura da Transamazônica vivem comentando essa drástica redução nas chuvas da região em relação ao que se via naquele tempo. O que traz graves ameaças à conservação da floresta e ao próprio potencial hidrelétrico de Belo Monte. Fato que já foi devidamente estudado através de projeções climáticas que já antevêem uma profunda redução do fluxo do Xingu devido às mudanças climáticas globais. Por que a Veja não trata deste assunto seriamente?

A atriz Claudia Ohana perguntou: "Quem se importa se os índios não vão ter onde morar?". O suposto nocaute vem de um estudante da UnB que diz: "Eu me importo. Foi por isso que pesquisei e descobri que nenhuma das dez terras indígenas da região será alagada". Se o garoto tivesse pesquisado direito veria que não há aldeias alagadas, mas, com o desvio da maior parte do fluxo do rio Xingu em trecho de 100 km, várias aldeias terão um rio morto a sua frente, sem peixes e cheio de lagos de pedra abandonados que se transformariam em criadouros de mosquitos, causando a proliferação de doenças. Isso, o desvio do fluxo natural do rio, pode ser até pior do que seria o alagamento de suas terras. Dizem que o leito do Xingu também tem muito ouro. Então se formarão garimpos sobre o leito seco do rio, que sempre trazem uma série de problemas sociais desastrosos para qualquer povo indígena que conviva com a proximidade dos garimpeiros. A imensa imigração também vai aumentar em muito a tensão entre índios e colonos em toda a região do Xingu, multiplicando as invasões às suas terras. Então, a observação de Claudia Ohana é pertinente.

Maitê Proença pergunta: "De onde tiraram essa idéia de que hidrelétrica é energia limpa?". Como resposta vem a observação de um aluno da Unicamp que diz: "Energia hidrelétrica é energia  limpa. Vamos ver a usina como uma fábrica. Ela usa água como matéria-prima. Mas e como resíduo? Água. Sai tão limpa quanto entrou. A diferença é que ela entra em um lugar alto, usa sua energia para movimentar as turbinas e sai em um lugar baixo. Sai a mesmíssima água, do jeito que entrou". O estudante está enganado. Além da água, os lagos das hidrelétricas também produzem grande quantidade de metano, que é um gás, proveniente da degradação de matéria orgânica em condições anaeróbicas, extremamente potente sob o ponto de vista do efeito estufa. Graças a ele as hidrelétricas na Amazônia muitas vezes contribuem mais para aquecimento global do que termelétricas de potência equivalente. Além disso, os desmatamentos, direta ou indiretamente causados pela construção das barragens, acabam por torná-las um desastre completo sob o ponto de vista da poluição ambiental. "Seria energia limpa se fosse no deserto, mas na floresta...?", perguntou muito bem Letícia Sabatella.

Outra crítica ao vídeo dos atores globais, mais velada, seria quanto a uma suposta "prostituição" do grupo. Explico: no filme original "Don't Vote", dos Estados Unidos, depois de muita insistência para que o internauta encaminhe para cinco amigos a mensagem sobre a importância de se comparecer às urnas nas eleições presidenciais, a comediante de stand up, atriz e escritora Sarah Silverman, em um dado momento, parece estar realmente cansada da espera para que o internauta tome uma atitude. Então, aparentemente por uma questão de conforto, tira o sutiã por baixo da camisa comprida.

Na versão brasileira, que infeliz e diferentemente daquela não contou com a direção de Steven Spielberg, Maitê Proença é bem mais sedutora. Como que pedindo a clicada em troca da sua nudez. Abriu-se assim espaço para a maior tirada do vídeo da Unicamp, que foi colocar uma aluna fazendo que tiraria a camiseta, mas cortando com um "não", como quem diz "não sou deste tipo, sou superior". Só que a realidade é justamente o contrário. Parte deste grupo de atores, especialmente os veteranos, tem um longo histórico de preocupação com o problema da destruição da Amazônia e eles sabem sim do que estão falando. Não são apenas os atores globais, tem gente em todas as profissões preocupada com o que se passa atualmente na Amazônia, mas há uma "cortina-de-fumaça" sobre o debate de Belo Monte. Esta obra desastrosa está "blindada", para usar um termo da moda. O diferencial deste grupo dos atores envolvidos com o projeto Gota D'água é que eles têm, principalmente agora com a independência da Internet, como furar esse bloqueio.

Aqueles alunos das faculdades de Engenharia Civil e Economia da Unicamp, por outro lado, estavam apenas lendo cegamente um texto do Prof. Sebastião Amorin, engenheiro eletrônico formado no ITA, que não deve conhecer nada da região e diz que a "conversão hidrelétrica não é limpa , é limpíssima...". Alienados são os estudantes que compraram essa bobagem cegamente. Segundo o vídeo dos estudantes paraenses ("Resistência contra Belo Monte - Vídeo dos estudantes amazônidas"), são "uns estudantes bundões, que são a favor de Belo Monte, que querem meter o bedelho, mas com um texto encomendado, é claro".

Uma excelente tréplica é o vídeo "O belo monstro e o belo castelo (uma resposta a "Tempestade em copo d'àgua?")", de Gabriel Barcelos. Este mostra como Belo Monte é um projeto da ditadura, revela a coalizão de Dilma Rousseff com a turma do Sarney e traz um trecho de uma entrevista do professor da faculdade de Engenharia Elétrica, também da Unicamp (mas historicamente contra os desastrosos projetos das hidrelétricas do Xingu), Oswaldo Sevá, explicando como Belo Monte atende a principalmente a interesses internacionais, não dos brasileiros.

Tudo isso está sendo feito com o dinheiro público, sem que a sociedade tenha a chance de debater o assunto clara e informadamente e com a possibilidade real de rejeitar o projeto. Essencialmente, é isso o que os atores tentaram dizer com o seu vídeo. Excelente! Parabéns para eles. Claro que teria sido melhor se eles tivessem consultado os pesquisadores que há vários anos estudam os previsíveis impactos desastrosos de Belo Monte. Mas o importante é que deram o primeiro passo. E sempre se pode fazer um novo vídeo melhor.

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Altamira, e faz parte do Painel de Especialistas para a Avaliação Independente dos Estudos de Impacto Ambiental de Belo Monte.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ABC e SBPC contra a saída do Ensino Superior do MEC para o MCTI

Moção da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência contra o PL 518 que transfere do MEC para o MCTI as competências sobre ensino superior.

A Academia Brasileira de Ciência e a Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência vêm a público manifestar sua discordância com o PL 518/2009 de autoria do senador Cristovam Buarque, o qual transfere a competência relativa à educação superior do MEC para o MCTI.

A ABC e a SBPC, desde suas origens, têm acompanhado e estudado a evolução da educação brasileira com grande interesse. Em 2004 a ABC divulgou o relatório sobre o ensino superior brasileiro, sob o título "Subsídios para a Reforma da Educação Superior" e em 2009 o relatório "O Ensino de Ciências e a Educação Básica: Propostas para Superar a Crise".

Por outro lado, a SBPC constituiu em 2008 um Grupo de Trabalho sobre Educação que tem promovido debates e realizado um trabalho intenso pela melhoria da educação básica brasileira.

O PL 518 não traz nenhum benefício conceitual, institucional ou acadêmico à organização do ensino superior brasileiro e tampouco ajuda a melhoria da educação básica em nosso País. A proposta de separação do ensino superior do conjunto dos assuntos educacionais de competência do MEC cria, em vez disso, óbices importantes ao desenvolvimento do ensino superior e da educação básica de forma integrada ao projeto educacional para o País:

1) A desvinculação do ensino superior do MEC, e sua transferência ao MCTI, pressupõe que toda instituição federal de ensino superior (IFES) seja também uma instituição de pesquisa, o que não é desejável e não corresponde nem à situação internacional, nem à do Brasil em particular. De fato, no Brasil e em outros países, a educação superior não se resume às universidades, compreendendo um amplo leque de instituições voltadas para a formação de técnicos e o aperfeiçoamento da educação de diferentes setores da população.

2) Além disso, a transferência das IFES ao MCTI levará a que a estratégia do MCTI tenda a ser absorvida pelas questões do ensino superior, muitas delas pouco relacionadas diretamente à ciência e tecnologia. No sistema de ciência, tecnologia e inovação do Brasil há papéis essenciais e insubstituíveis para universidades, institutos de pesquisa e empresas, e cabe ao MCT buscar sempre um sistema de C&T balanceado.

3) O PL 518 deixa de considerar que a CAPES passou, há alguns anos, a ter importantes funções relativas ao aperfeiçoamento de professores da educação básica, fazendo uso de sua ampla e bem sucedida experiência no ensino superior. Além disso, a Capes está envolvida na avaliação de cursos de pedagogia e mestrados profissionais. Esse conjunto de atividades demonstra a importância da articulação do ensino superior com a educação básica, que seria certamente enfraquecida se aprovado o PL 518.

4) Finalmente, o PL 518 nada trata sobre a questão essencial da autonomia universitária, que traria enormes benefícios ao desenvolvimento do Brasil. Um regime de autonomia efetiva permitirá que as universidades funcionem muito melhor, seguindo prioridades baseadas em valores acadêmicos, além de desonerar o MEC de vários aspectos comezinhos da gestão.

Pelos motivos acima expostos, a ABC e a SBPC solicitam aos Exmos. Senhores Deputados e Senadores que não aprovem o referido instrumento sem antes ouvirem amplos setores da comunidade acadêmica brasileira.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ainda tem estudantes de verdade em nosso país

Algumas pessoas pensam que não, mas em nosso país ainda existem estudantes de verdade sim senhor...
São estudantes que formam a si próprios nas lutas dentro das Instituições de Ensino Superior...
São estudantes que buscam a dignidade pessoal e a consciência social e cidadã do que é querer viver numa democracia, onde 'direito não seja só de uns poucos...
São estudantes que não querem se tornar capachos de politiqueiros nem administradores baratos de "plantão", porque lhes é oferecido dinheiro ou vantagens.

Ainda existem estudantes no Brasil; esse país ainda é possível. Leiam a nota abaixo:

Manifesto da ocupação na USP - Butantã !!!
por Ocupa Usp, segunda, 31 de Outubro de 2011 às 17:42

Nós, estudantes da USP, organizados no movimento de ocupação e com apoio dos trabalhadores, lançamos este manifesto a fim de nos posicionarmos frente à sociedade sobre o que vem ocorrendo na Universidade de São Paulo.

Há uma política repressora que tem avançado contra aqueles que lutam por uma Universidade pública. As ações da reitoria da USP para aprofundar o processo de privatização tem se intensificado – o que se produz dentro da universidade cumpre, cada vez mais, o propósito de atender aos interesses do mercado em detrimento dos interesses de toda população. Com o objetivo de desmontar o caráter público da USP, a reitoria vem tomando medidas para eliminar as forças de resistência na Universidade. Mais de 26 estudantes, além de vários trabalhadores e professores, estão sendo processados por se manifestarem politicamente, através de processos administrativos que visam a eliminação e demissão da Universidade, e processos criminais que visam a prisão.

Com a justificativa de garantir a segurança, o reitor da USP instaurou, por meio de um convênio, a presença da polícia militar no campus. Com o avanço das perseguições políticas fica evidente que o real objetivo da polícia militar na USP não é o de inibir crimes, mas sim de inibir e combater manifestações políticas e cercear o direito de expressão livre de estudantes e trabalhadores.


Num contexto de crise sistêmica do capitalismo, se evidencia, em todo o mundo, o papel da polícia como aparelho armado de repressão aos movimentos sociais que resistem ao avanço da desigualdade e ataques a direitos históricos da população. Na Grécia, durante os protestos contra as políticas de austeridade, os manifestantes têm sido duramente reprimidos. Em Londres e em Madri a situação é muito semelhante. No Chile, um milhão de estudantes vão às ruas exigindo uma educação pública e gratuita, e a violência contra manifestantes é igualmente dura.


No Brasil, os conflitos em 2009 em Paraisópolis, a repressão cotidiana das UPPs aos moradores dos morros cariocas, e as violências policiais contra ambulantes em luta no centro de São Paulo indicam o mesmo sentido da atual militarização da USP: a repressão policial são ataques àqueles que lutam por seus direitos elementares. E essa repressão, destaque-se, é mendaz: a própria ONU, entidade legitimadora do imperialismo, reconhece a polícia brasileira como sendo a que mais mata no mundo.


No dia 08/09/2011, o Reitor João Grandino Rodas, sustentado institucionalmente por um Conselho Gestor antidemocrático (apenas 30 % dos membros representam trabalhadores e estudantes juntos), assinou um convênio com a Polícia Militar.  Para mascarar os reais propósitos do convênio Rodas-PM, a reitoria da USP se utilizou de maneira oportunista da morte do estudante Felipe Ramos de Paiva, que ocorreu dentro do campus. O que foi omitido é que no dia do assassinato a PM já estava agindo na universidade – inclusive fazendo blitz em frente ao local da ocorrência. Nos últimos dias, para legitimar as violências ocorridas na USP sem explicitar seu caráter político, também se utilizaram de maneira oportunista do mote do “combate as drogas” para, assim, justificar todo clima de medo que têm promovido dentro da Universidade diariamente. Nos morros do Rio e em todas as periferias brasileiras, a repressão possui a mesma faceta: se utilizam de argumentos como o combate ao tráfico de drogas para atacar as liberdades mais elementares de todo o povo pobre.

O que a mídia não denuncia é que a polícia que enquadra estudantes na USP por porte de maconha é a mesma policia que age com o narcotráfico, recebendo o lucro das vendas com uma mão enquanto reprime com a outra. O que a mídia omite é que a polícia que invade casas na favela e atira em mulheres e crianças com a justificativa de prender traficantes é a mesma polícia que é sócia do tráfico. Isso expressa a hipocrisia de combater o narcotráfico nas universidades e nas favelas, pois os verdadeiros promotores e beneficiados desse mercado, um dos mais lucrativos do mundo, são as industrias farmacêuticas, a polícia, as clínicas privadas, entre outros.


Essa repressão tem avançado, pois a lei vigente que supostamente descriminaliza o porte de maconha só funciona como uma cortina de fumaça, erguida pelo sistema para dificultar o aprofundamento do debate sobre a legalização da maconha e para criminalizar a pobreza, movimentos sociais e ativistas políticos.


A atuação da PM em nosso Campus na última quinta feira (27/10) foi apenas mais um de uma série de episódios de acuação de estudantes e servidores da USP pela PM. Na semana passada estudantes da Escola Politécnica foram abordados dentro de seus Centros Acadêmicos. Na Escola de Comunicação e Arte (ECA) um estudante foi revistado pela polícia com a justificativa, no mínimo estranha, de “olhar feio” aos policiais. Nos últimos meses, não foram poucas as averiguações dentro dos Centros Acadêmicos, o que não impediu um roubo no Centro Acadêmico da ECA, apenas uma semana após a revista da PM no local. No dia que culminou com esta ocupação, professores e estudantes foram abordados e revistados em frente à biblioteca da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH). E nessa mesma faculdade, horas mais tarde, três alunos foram detidos por políciais da ROCAM. Ao tentarem impedir a detenção desses colegas, deliberadamente defendida pela diretora Sandra Nitrini, centenas de estudantes foram atacados com bombas de efeito moral, gás lacrimogênio, spray de pimenta, cacetetes e balas de borracha. Vários estudantes foram feridos. Respondemos como pudemos – ou seja, correndo e arremessando paus e pedras.


O discurso da reitoria tentou justificar a intervenção policial utilizando de maneira oportunista o assassinato de Felipe Ramos Paiva. Outros casos, entretanto, não foram igualmente veiculados pela mídia e pela reitoria – e isso não foi por acaso. Um desses casos foi o da morte do estudante Samuel de Souza, morador do Conjunto Residencial da USP (CRUSP). Ele era negro, pobre, baiano e estudava Filosofia. Samuel morreu dentro da USP por negligência médica da reitoria em relação a uma política de saúde nos campi da USP. Também houve a morte de Cícera, funcionária da lanchonete da Pedagogia, assassinada na favela São Remo, decorrente de uma “bala perdida” disparada pela Polícia. A hipocrisia do discurso da reitoria, que diz combater a violência, fica claro quando sua própria política de precarização foi responsável pela morte do trabalhador terceirizado de limpeza, José Ferreira, em decorrência de um acidente de trabalho.

Tais relatos nos impõe o questionamento: ao que se presta, de fato, a presença policial na USP?

O objetivo real da presença policial é garantir a execução de um projeto de universidade, ostensivamente defendido pelo Reitor João Grandino Rodas. Esse projeto político busca submeter a Universidade aos interesses de empresas e fundações privadas, cujo único objetivo é a maximização de seus próprios lucros: e é por isso que as pesquisas sem viés mercadológico são cada vez mais raras na Universidade. A estrutura que sustenta tal projeto é referendada apenas por um pequeno grupo de pessoas, imerso em relações políticas bastante duvidosas com grandes empresas, fundações e o próprio governo do estado de São Paulo. Com a diminuição da verba para trabalhadores efetivos, o aumento da contratação de terceirizados, e sem garantias de contratação de professores e reposição dos aposentados, a universidade que já é fechada para a maioria da população, em especial pobres e negros, se torna ainda mais exclusiva, elitista e mercadológica sob a administração de Rodas, levada a cabo com a mão repressora da Polícia Cívil e Militar.

Simultaneamente à repressão policial, que ocorre tanto na USP quanto fora dela, a reitoria tenta extinguir os espaços políticos e culturais de organização dos estudantes, como o Núcleo de Consciência Negra, que foi fundado há 23 anos na USP e até o momento não foi legitimado pela universidade, sofrendo com ameaças de demolição do barracão onde desenvolve suas atividades. O CANIL - Espaço Fluxus de Cultura, um dos poucos espaços culturais estudantis da USP-Butantã, sofreu uma tentativa de demolição, que foi barrada pelo conjunto de estudantes. A Moradia Retomada, ocupada devido ao déficit de vagas no CRUSP, continua ameaçada por um mandato de reintegração de posse solicitado pelo Reitor. E o espaço do DCE Ocupado, após reforma, seria re-inaugurado não mais como um espaço autônomo, mas como “Centro de Vivência da Reitoria” – o que foi impedido pelos estudantes.


A reitoria tenta silenciar todos os movimentos de resistência da Universidade com uma avalanche de processos. Os processos administrativos baseiam-se no Decreto 52.906, de 1972, Regime Disciplinar instituído sob a égide da Ditadura Militar, que vigora no estatuto da USP como “disposição transitória” há algumas décadas.  Segundo este decreto, são considerados atos de “indisciplina” de estudantes, trabalhadores e professores, passíveis da punição, expressa no artigo 248, inciso IV, de “eliminação”, as seguintes práticas: artigo 250 inciso VIII - “promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares (greves)” ; inciso IV -“praticar ato atentatório à moral ou aos bons costumes”;inciso II “ (...)afixar cartazes fora dos locais a eles destinados”. As acusações que baseiam os processos tratam ações políticas legítimas como desvios de comportamento e são, ou questionáveis, ou deturpadas. Alguns dos processos foram abertos com base apenas em Boletins de Ocorrência que apresentam, como de praxe, uma versão unilateral dos fatos. No caso dos processos criminais, coloca-se a ameaça de prisão de pessoas com base em acusações forjadas pela Consultoria Jurídica da reitoria para levar a cabo sua perseguição política. As testemunhas em favor da reitoria geralmente são membros das chefias, das guardas ou outros que, tendo vínculos empregatícios com o denunciante, têm seu testemunho enviesado. Esta é uma das maneiras de se produzir as provas falsas. É no mínimo estranho que tenha sido criada, por exemplo, uma delegacia especial para tratar da repressão às ações políticas dos trabalhadores. Lembrando que em 200 um dos diretores do Sindicato dos Trabalhadores da USP foi demitido por lutar contra a precarização e terceirização na universidade.  A reitoria tenta hoje preparar terreno para avançar rapidamente com as punições contra estudantes, trabalhadores e professores dissidentes da ordem privatista que vem sendo estabelecida. Por isso decidimos cobrir os rostos: pela real ameaça de represália política - e não porque somos ou nos sentimos criminosos.

Por esses motivos, somos contrários aos processos contra estudantes e trabalhadores e pela revogação completa destes decretos e processos criminais e administrativos! Somos pela revogação imediata do Convênio entre a PM e a USP! FORA PM!
Manteremos nossa ocupação até que todas as nossas reivindicações sejam atendidas.